sábado, abril 21, 2018

Meias

Oiço o vento a soprar da chaminé para a lareira
E vejo as gotas na janela da sala.
Mal se vê a cidade.
Há uma neblina e ondas de chuva
Que baloiçam de um lado para o outro.
O chiar do vendo não abranda.

Dá-me sono.

A televisão ligada.

Gato dorme.
A gata sopra.

Tenho meias.

É abril.

sábado, dezembro 16, 2017

Uma pessoa lembra-se de ligar o antigo portátil para descarregar fotos e depara-se com um blog cheio de pó e com disparates de há muitos anos. 

Vamos lá por isto a funcionar como deve ser. Vamos trazer mais cor, um diário, algumas crónicas e fotografias. 

Gosto de Sintra, sinto-me atraído por Lisboa, quero, um dia, viver no Alentejo e gosto, de forma esporádica, de ir às Beiras ver os meus sobrinhos e a minha mãe, andar pelas ruas da cidade que me educou. Por vezes, meto-me num avião e vou conhecer sítios. Meto-me muitas vezes na estrada e percorro Portugal de uma ponta à outra. 

É sobre que vou escrever, voltar a escrever, ou partilhar textos que fui escrevendo durante os meus anos em África, ou das minhas recordações nos três continentes em que vivi. 

Não tenho aspirações que isto seja seguido. Servirá, somente, para organizar os meus dias. Ou as minhas noites. 

Partilhar sítios, sensações e deixar dicas de coisas engraçadas. Afinal estamos todos em rede. 

(foto dos Jardins do Palácio Nacional da Pena, muito mais apetecível nestes dias de frio.)

quarta-feira, abril 23, 2014

Chove há três dias. Chuvas consistentes e a atmosfera mantém-se quente e húmida, para além do meu corpo, que desde os pés, até à gola do pólo tenho tudo encharcado. 
A parte da manhã foi repleta de aulas, a falar sobre o mito do Adamastor. Escolhi, juntamente dos miúdos, o rapaz com a voz mais grossa e em cima da cadeira, de frente para nós, leu todo o discurso do gigante. Nós, sentados, fizemos de navegadores e eu, como sempre, de Vasco da Gama. 
Penso que perceberam a importância do mito ao lado do medo. Penso que também entenderam que somos capazes de ultrapassar as nossas dificuldades se tivermos coragem de as enfrentar. Foram duas aulas feitas da mesma forma, embora  em ritmos diferentes. 
E saí a transpirar delas e, mais uma vez, gostei de ter dramatizado as minhas aulas. Aliás, a minha pré-tese é sobre isso: A dramatização nas aulas para a captação da atenção dos alunos. Funciona sempre e aprendem no meio de tanta diversão. 
Como tinha de ficar mais dois blocos na escola, nos chamados "furos", decidi tratar de coisas chatas, relativas às reuniões de Encarregados de Educação. Sempre detestei ser Diretor de Turma e este ano calhou-me a coordenação do cargo. Algo duplamente monótono, quando o que eu gosto é de ter as mãos cobertas de giz e o quadro cheio de palavras. 
Ao passar pela sala de acolhimento, a Diretora chamou-me. Tinha dois jornalistas. Um deles fora aluno do Instituto e vinham fazer uma matéria sobre o Dia Internacional do Livro e dos Direitos de Autor. Pediu-me que os levasse à biblioteca e que rebuscasse alguns alunos para falarem dos livros que liam.
(E eu tremi e senti-me pequenino, pois deixei passar o dia, por lapso, por falta de rigor às datas referentes ao que me compete.)
Segui e arrastei uma colega. Levámos garotos, foram inquiridos, filmados e, no fim, dei uma entrevista, respondendo às perguntas "Qual a importância da leitura?"; "Os alunos lêem menos?" e terminei dizendo que como professor de Português, arranjo estratégias de os cativar. Tarefa que não é fácil no meio de tanta nintendo e ipad. 
Dei mais um bloco, almocei a correr, pois à tarde teria a reunião de Encarregados de Educação. Dar as notas, dizer que estudam pouco e que os pais estão a falhar em casa... Uma tarefa chata, pois, (in)felizmente não sou pai e sei o quão difícil é ouvir algumas coisas. Uma das senhoras, ao sair, por viver perto de mim em Lisboa e criarmos alguma empatia, perguntou como estava a minha mãe e a minha namorada. Foi um misto de sensações e, eu gelado no meu pensamento, sorri e disse que estavam bem e que já tinha saudades. 
Pelos vistos ser Diretor de Turma também tem coisas boas. Aquilo que chamamos de afeto... 
A puta da vida surpreende-nos, às vezes mais do que algumas pessoas. 

terça-feira, abril 22, 2014

Quando cheguei na ilha, no passado sábado, senti a mesma sensação de quando chego a Portugal. Estava feliz, olhava para os sítios com algum apego e tudo me fazia pensar que estes três meses que me faltam para o fim do ano letivo seriam leves e fáceis. Contudo, nada passava de algo momentâneo, pois em menos de 48 horas, o meu desejo de sair daqui era mais rápido do que a velocidade da luz.
A luz é algo importante na nossa vida. Com ela vemos efetivamente o mundo que nos rodeia e conseguimos compreender o que na escuridão nos pode assustar. 
Não é fácil estar num local onde sabemos que se relacionar com pessoas do nosso país é algo difícil. Onde as relações não são por interesses de gostos, não é pela cumplicidade, ou até mesmo pela partilha da dor de estar longe. Senti-o desde cedo e para me refugiar, centro-me no trabalho. Em pouco tempo criei um laço, com uma pessoa que partilha da mesma dor e de alguns medos, alguns iguais, outros completamente diferentes. Com ela, passei momentos de felicidade, de nostalgia, de descoberta e algumas largas horas de sofrimento. Vi-a enfraquecer-se. Vi-a doente e com um misto de medo e de amor, estive ao seu lado, fazendo festas à beira da cama, para se sentir confortável e amada. 
De há dois dias, tenho sentido imenso a sua falta. Faz-me confusão não vê-la na sala de professores, de trocar mensagens marcando encontros. Faz-me confusão não entrar em casa dela, lavar as mãos e depois abraçá-la. Principalmente hoje, hoje que precisava tanto de por a cabeça no seu colo e ficar uma hora de olhos fechados.
As aulas começaram hoje. Revi os meus alunos, alguns colegas, os funcionários. Sorrisos rasgados por parte dos negros, que diziam "olá professor" e me faziam perguntas sobre as minhas férias, sobre os meus familiares. 
Ao almoço, vim para baixo, mas tudo se desmoronou no primeiro mergulho. Nos meus intervalos gosto de dar mergulhos na piscina do hotel perto de minha casa. Sabe bem boiar, ir ao fundo, sentar-me na espreguiçadeira e fechar os olhos. Vou lá muitas vezes, pois o serviço é bom e a internet é de graça. Muitas vezes vou lá pela internet. Para falar com meia dúzia de pessoas que me fazem falta. Desço o monte na esperança de as apanhar on-line, de receber notícias, e ouvir a voz delas. Hoje a voz não me foi agradável. Sinto-me impotente e chateado quando as coisas fogem do meu controle e quando pensamos que as relações que temos não devem ter regras. Sinto-me magoado de fazer um pedido que não é cumprido. Sinto-me desiludido quando me encobrem as coisas e descubro por outrem. Perco pedaços de mim e mando-me para a água, mantendo-me no fundo da piscina e saltando um berro de catarse. 
E no meio disto tudo, quem me amparou foi ela. Numa chamada. E só me apetecia ir embora e deixar para trás tudo aquilo que vim colher: tempo de serviço para estar mais confortável na cidade e ao lado da pessoa que partilho a vida. 
As relações não são de todo fáceis. Sei que temos de ceder, de compreender, de aceitar algumas coisas, mas, por outro lado, sinto que não posso perder a minha essência e o meu ideal relacional. Não devendo corroborar com as coisas que não partilho. E apetece-me deixar tudo para trás. 
Mas, se eu transformar e mudar a minha escolha, conseguirei dar volta à minha ansiedade e ao meu estado de espírito? Será mais fácil pensar que o universo tem uma força superior sobre as coisas e afinal não vim em busca de uma vida melhor e do bem-estar na minha relação no futuro? Que deveria pensar somente na minha vida profissional e por de parte o desejo de ser feliz numa relação?
Tenho tantas dúvidas e tento não penar nelas com medo de uma resposta oposta ao meu propósito inicial. 
Ao regressar para a escola, abstraí-me de tudo e no fim da aula, como de costume, li uma crónica minha. Falava sobre a minha mãe. Tive de parar, pois lembrei-me de uma das chamadas telefónicas e do meu soluçar pedindo-lhe ajuda. Continuei com um traço de frieza de mármore e no fim pedi ao alunos que me explicassem o que eu dizia no texto. 
Concluíram que o meu desejo é ser extraordinário como ela. Uma miúda tinha os olhos em lágrimas e naquele preciso momento obtive uma das respostas: vieste porque tens o coração de professor e não porque tens uma relação para o futuro. 
Mas, não poderei ter as duas coisas? Terei de ser só eu a sacrificar-me? Só poderei ter uma delas?
E vim para casa no escuro. Faltou a luz no cimo do monte e eu deambulei pela berma com mais tantas dúvidas. E continuo assustado, pois dentro de mim há uma enorme escuridão que me provoca medo. 
(tiremmedaqui)

segunda-feira, abril 21, 2014

A distância

O dias são lentos, mesmo quando temos muito o que fazer.
É fácil sentir-se isolado, mesmo partilhando a casa, com colegas à volta e fazendo o que mais gostas, quando te habituaste ter uma companhia  física. Custa partilhar por mensagens, custa viver no sobressalto de uma mensagem, do sinal verde do chat.
Há noites que acordo e vou ao telemóvel, para ver se vejo algumas palavras, como sinais de um abraço no meio da noite, ou do acordar e ver-te ao meu lado.
As palavras são sempre escassas quando estamos habituados ao toque, ao olhar e ao cheiro.
Por várias vezes pergunto-me se valerá o esforço, que me consome de hora após hora. Há dias, e hoje é um deles, que gostaria de morrer por alguns meses e acordar aconchegado por ti. Há dias, e hoje é um deles, que um abraço valeria imenso.
Dome bem.

(Mesmo chateado, pelos motivos que me são válidos, fazes-me falta. E eu peço que vejas os meus medos, que me assombram pela distância, como um copo cheio de tinta da china, que deveria estar expressa com palavras numa folha branca.)

Regresso

Há algum tempo que não publicava por estas bandas.
Uma pessoa acomoda-se, adere às novas redes sociais, onde publica o que faria sentido ser publicado aqui.
Muda de vida.
Recorda-se da que teve.
Pede para que tudo volte ao normal e, devagarinho, vai escrevendo coisas.

Aos poucos reponho a vida que aqui tive, mas agora em forma de diário, pois estou longe e para que qualquer doença mental que me afete, alguém tenha onde ler para mim aquilo que vivi.

Construímos memórias, mesmo que não escritas. São as memórias que nos alegram ou nos entristecem. É por elas que voltarei a escrever, independentemente de ter um público ou não.

Glaukwpis

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Palavras são palavras

E a gente nem percebe...

Eu sei que tenho um jeito meio estúpido de ser

E não vou deixar que ninguém se intrometa,

Pois é assim que eu sei te amar.

Voltou

Já não sentia isto há muito.
Não tenho saudades. Quero que desapareça e continue como era dantes.
Desespero.
Farto.
Quero Voltar ao meu eu.
Onde o perdi?

terça-feira, novembro 01, 2011

Não te aplicas

Continuas a dar-me as mãos no sentido contrário e depois não sabes porque é que bato a porta no meio da noite e termino em bordéus, rodeado de prostitutas.
Elas ao menos perguntam-me o que tenho, nem que seja pelo valor de uma nota de 50...
Desabafo;
Dizem que lhes dou prazer;
Volto para casa mais aliviado, sem paciência para te ouvir e durmo bem.

Papéis

Há dias que não descia as escadas e olhava para a quantidade de caixas que tenho dentro da minha cave.
Algumas abertas, outras rasgadas, onde as folhas de papel aparecem ratadas pelas traças. Papéis com muita ou pouca relevância que outrora tiveram algum peso nos meus dias. Ou simplesmente peso nalgumas das minhas horas.
deixo-o assim, ratadinhos, pois os mais importantes ficam guardados na minha cabeceira.

*suspiro*

Hoje acordei, mais uma vez, às 5h30AM e apeteceu-me escrever naquele caderno que tenho escondido debaixo das fotocópias :)

Meias

Oiço o vento a soprar da chaminé para a lareira E vejo as gotas na janela da sala. Mal se vê a cidade. Há uma neblina e ondas de chuva Q...